«O evangelho ajuda-nos a compreender que somente o amor de Deus pode mudar a partir de dentro a existência do homem.»
[…] A Palavra de Deus que acabamos de ouvir, neste V Domingo de
Quaresma, chamado também Domingo da Paixão, e que ressoa com eloquência
singular no nosso coração durante este tempo quaresmal, recorda-nos que a
nossa peregrinação terrena está repleta de dificuldades e de provações,
como o caminho do povo eleito no deserto, antes de chegar à terra
prometida. Mas a intervenção divina, assegura Isaías na primeira
Leitura, pode facilitá-lo, transformando as estepes numa terra
confortável e rica de águas (cf. 43, 19-20). Ao profeta faz eco o Salmo
responsorial: enquanto evoca a alegria do regresso do exílio babilónico,
invoca o Senhor para que intervenha a favor dos «prisioneiros» que,
quando partem vão a chorar, mas quando regressam ficam cheios de júbilo
porque Deus está presente e, como no passado, realizará também no futuro
«grandes coisas por nós».
[…] No sulco daquilo que a liturgia
nos propôs no domingo passado, a página evangélica deste dia ajuda-nos a
compreender que somente o amor de Deus pode mudar a partir de dentro a
existência do homem e, consequentemente, de toda a sociedade, porque só o
seu amor infinito o liberta do pecado, que é a raiz de todo o mal. Se é
verdade que Deus é justiça, não podemos esquecer que Ele é sobretudo
amor: se odeia o pecado, é porque ama infinitamente cada pessoa humana.
Ama cada um de nós, e a sua fidelidade é tão profunda que não se deixa
desanimar nem sequer pela nossa rejeição. Em particular, hoje Jesus
exorta-nos à conversão interior: explica-nos o motivo pelo qual nos
perdoa e ensina-nos a fazer do perdão recebido e oferecido aos irmãos o
«pão quotidiano» da nossa existência.
O trecho evangélico narra
o episódio da mulher adúltera, em duas cenas sugestivas: na primeira,
assistimos a uma disputa entre Jesus, os escribas e os fariseus, a
propósito de uma mulher surpreendida em adultério flagrante e, segundo a
prescrição contida no Livro do Levítico (cf. 20, 10), condenada à
lapidação. Na segunda cena, descreve-se um breve e comovedor diálogo
entre Jesus e a pecadora. Citando a lei de Moisés, os impiedosos
acusadores da mulher provocam Jesus chamando-lhe «mestre» (Didáskale) e
perguntam-lhe se é justo lapidá-la. Eles conhecem a sua misericórdia e o
seu amor pelos pecadores, e estão curiosos de ver como reagirá num caso
como este, que segundo a lei mosaica não deixava espaço a dúvidas.
Todavia, Jesus coloca-se imediatamente a favor da mulher; em primeiro
lugar, escrevendo no chão palavras misteriosas, que o evangelista não
revela, mas fica impressionado, e depois pronunciando aquela frase que
se tornou famosa: «Quem de vós estiver sem pecado (usa o termo
anamártetos, que no Novo Testamento só é utilizado aqui), seja o
primeiro a lançar-lhe uma pedra» (Jo 8, 7) e dê início à lapidação. Ao
comentar o Evangelho de João, Santo Agostinho observa que, «respondendo,
o Senhor respeita a lei e não abandona a sua mansidão». Depois,
acrescenta que com estas suas palavras obriga os acusadores a entrarem
em si mesmos e, reflectindo sobre si próprios, a descobrirem-se também
eles pecadores. Por isso, «atingidos por estas palavras como por uma
flecha tão grande como uma trave, um por um foram-se embora» (In Io. Ev.
tract. 33, 5).
Portanto, um após outro, os acusadores que
queriam provocar Jesus vão-se embora «a começar pelos mais velhos, até
aos últimos». Quando todos se foram, o Mestre divino permanece a sós com
a mulher. O comentário de Santo Agostinho é conciso e eficaz: «Relicti
sunt duo: misera et misericordia, só permanecem as duas: a miserável e a
misericórdia» (Ibidem). Dilectos irmãos e irmãs, detenhamo-nos a
contemplar esta cena, em que se encontram confrontadas a miséria do
homem e a misericórdia divina, uma mulher acusada de um grande pecado e
Aquele que, embora fosse sem pecado, assumiu os nossos pecados, os
pecados do mundo inteiro. Ele, que permaneceu inclinado a escrever no
pó, agora eleva o seu olhar e encontra o da mulher. E não é irónico,
quando lhe pergunta: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» (Jo
8, 10). E responde-lhe de modo surpreendente: «Nem Eu te condeno. Vai, e
doravante não tornes a pecar» (8, 11). No seu comentário, Santo
Agostinho comenta ainda: «O Senhor condena o pecado, não o pecador. Com
efeito, se tivesse tolerado o pecado, teria dito: Nem Eu te condeno.
Vai, e vive como quiseres… por maiores que sejam os teus pecados, Eu
libertar-te-ei de toda a pena e de todo o sofrimento. Todavia, Ele não
disse isto» (In Io. Ev. tract. 33, 6). Mas disse: «Vai, e doravante não
tornes a pecar».
Caros amigos, da palavra de Deus que ouvimos
sobressaem indicações concretas para a nossa vida. Jesus não começa com
os seus interlocutores um debate teórico sobre o trecho da lei de
Moisés: não lhe interessa vencer uma disputa académica a propósito de
uma interpretação da lei mosaica, mas a sua finalidade consiste em
salvar uma alma e revelar que a salvação só se encontra no amor de Deus.
Foi por isso que veio à terra, por isso há-de morrer na cruz e o Pai
ressuscitá-lo-á no terceiro dia. Jesus veio para nos dizer que nos quer a
todos no Paraíso, e que o inferno, do qual se fala pouco nesta nossa
época, existe e é eterno para quantos fecham o coração ao seu amor.
Portanto, também neste episódio compreendemos que o nosso verdadeiro
inimigo é o apego ao pecado, que pode levar-nos ao fracasso da nossa
existência. Jesus despede-se da mulher adúltera com esta exortação: Vai,
e doravante não tornes a pecar». Concede-lhe o perdão, a fim de que
«doravante» não volte a pecar. Num episódio análogo, o da pecadora
arrependida, que encontramos no Evangelho de Lucas (cf. 7, 36-50), Ele
recebe e manda em paz uma mulher que se arrependeu. Aqui, ao contrário, a
mulher adúltera simplesmente recebe o perdão de maneira incondicionada.
Em ambos os casos para a pecadora arrependida e para a mulher adúltera a
mensagem é uma só. Num caso, sublinha-se o facto de que não há perdão
sem arrependimento, sem desejo do perdão, sem abertura do coração ao
perdão; aqui, põe-se em evidência o facto de que o perdão divino e o seu
amor recebido com coração aberto e sincero nos incutem a força de
resistir ao mal e de «não tornarmos a pecar», de nos deixarmos arrebatar
pelo amor de Deus, que se torna a nossa força. A atitude de Jesus
torna-se, deste modo, um modelo a seguir para cada comunidade, chamada a
fazer do amor e do perdão o coração palpitante da sua vida.
Estimados irmãos e irmãs, no caminho quaresmal que estamos a percorrer e
que se aproxima rapidamente da sua conclusão, sejamos acompanhados pela
certeza de que Deus nunca nos abandona, e que o seu amor é nascente de
alegria e de paz; é força que nos impele poderosamente ao longo do
caminho da santidade. […]
Papa Bento XVI, Paróquia de Sta. Felicidade e Filhos Mártires, Domingo, 25 de Março de 2007

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