segunda-feira, 1 de abril de 2013

«O evangelho ajuda-nos a compreender que somente o amor de Deus pode mudar a partir de dentro a existência do homem.»

[…] A Palavra de Deus que acabamos de ouvir, neste V Domingo de Quaresma, chamado também Domingo da Paixão, e que ressoa com eloquência singular no nosso coração durante este tempo quaresmal, recorda-nos que a nossa peregrinação terrena está repleta de dificuldades e de provações, como o caminho do povo eleito no deserto, antes de chegar à terra prometida. Mas a intervenção divina, assegura Isaías na primeira Leitura, pode facilitá-lo, transformando as estepes numa terra confortável e rica de águas (cf. 43, 19-20). Ao profeta faz eco o Salmo responsorial: enquanto evoca a alegria do regresso do exílio babilónico, invoca o Senhor para que intervenha a favor dos «prisioneiros» que, quando partem vão a chorar, mas quando regressam ficam cheios de júbilo porque Deus está presente e, como no passado, realizará também no futuro «grandes coisas por nós».

[…] No sulco daquilo que a liturgia nos propôs no domingo passado, a página evangélica deste dia ajuda-nos a compreender que somente o amor de Deus pode mudar a partir de dentro a existência do homem e, consequentemente, de toda a sociedade, porque só o seu amor infinito o liberta do pecado, que é a raiz de todo o mal. Se é verdade que Deus é justiça, não podemos esquecer que Ele é sobretudo amor: se odeia o pecado, é porque ama infinitamente cada pessoa humana. Ama cada um de nós, e a sua fidelidade é tão profunda que não se deixa desanimar nem sequer pela nossa rejeição. Em particular, hoje Jesus exorta-nos à conversão interior: explica-nos o motivo pelo qual nos perdoa e ensina-nos a fazer do perdão recebido e oferecido aos irmãos o «pão quotidiano» da nossa existência.

O trecho evangélico narra o episódio da mulher adúltera, em duas cenas sugestivas: na primeira, assistimos a uma disputa entre Jesus, os escribas e os fariseus, a propósito de uma mulher surpreendida em adultério flagrante e, segundo a prescrição contida no Livro do Levítico (cf. 20, 10), condenada à lapidação. Na segunda cena, descreve-se um breve e comovedor diálogo entre Jesus e a pecadora. Citando a lei de Moisés, os impiedosos acusadores da mulher provocam Jesus chamando-lhe «mestre» (Didáskale) e perguntam-lhe se é justo lapidá-la. Eles conhecem a sua misericórdia e o seu amor pelos pecadores, e estão curiosos de ver como reagirá num caso como este, que segundo a lei mosaica não deixava espaço a dúvidas. Todavia, Jesus coloca-se imediatamente a favor da mulher; em primeiro lugar, escrevendo no chão palavras misteriosas, que o evangelista não revela, mas fica impressionado, e depois pronunciando aquela frase que se tornou famosa: «Quem de vós estiver sem pecado (usa o termo anamártetos, que no Novo Testamento só é utilizado aqui), seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra» (Jo 8, 7) e dê início à lapidação. Ao comentar o Evangelho de João, Santo Agostinho observa que, «respondendo, o Senhor respeita a lei e não abandona a sua mansidão». Depois, acrescenta que com estas suas palavras obriga os acusadores a entrarem em si mesmos e, reflectindo sobre si próprios, a descobrirem-se também eles pecadores. Por isso, «atingidos por estas palavras como por uma flecha tão grande como uma trave, um por um foram-se embora» (In Io. Ev. tract. 33, 5).

Portanto, um após outro, os acusadores que queriam provocar Jesus vão-se embora «a começar pelos mais velhos, até aos últimos». Quando todos se foram, o Mestre divino permanece a sós com a mulher. O comentário de Santo Agostinho é conciso e eficaz: «Relicti sunt duo: misera et misericordia, só permanecem as duas: a miserável e a misericórdia» (Ibidem). Dilectos irmãos e irmãs, detenhamo-nos a contemplar esta cena, em que se encontram confrontadas a miséria do homem e a misericórdia divina, uma mulher acusada de um grande pecado e Aquele que, embora fosse sem pecado, assumiu os nossos pecados, os pecados do mundo inteiro. Ele, que permaneceu inclinado a escrever no pó, agora eleva o seu olhar e encontra o da mulher. E não é irónico, quando lhe pergunta: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» (Jo 8, 10). E responde-lhe de modo surpreendente: «Nem Eu te condeno. Vai, e doravante não tornes a pecar» (8, 11). No seu comentário, Santo Agostinho comenta ainda: «O Senhor condena o pecado, não o pecador. Com efeito, se tivesse tolerado o pecado, teria dito: Nem Eu te condeno. Vai, e vive como quiseres… por maiores que sejam os teus pecados, Eu libertar-te-ei de toda a pena e de todo o sofrimento. Todavia, Ele não disse isto» (In Io. Ev. tract. 33, 6). Mas disse: «Vai, e doravante não tornes a pecar».

Caros amigos, da palavra de Deus que ouvimos sobressaem indicações concretas para a nossa vida. Jesus não começa com os seus interlocutores um debate teórico sobre o trecho da lei de Moisés: não lhe interessa vencer uma disputa académica a propósito de uma interpretação da lei mosaica, mas a sua finalidade consiste em salvar uma alma e revelar que a salvação só se encontra no amor de Deus. Foi por isso que veio à terra, por isso há-de morrer na cruz e o Pai ressuscitá-lo-á no terceiro dia. Jesus veio para nos dizer que nos quer a todos no Paraíso, e que o inferno, do qual se fala pouco nesta nossa época, existe e é eterno para quantos fecham o coração ao seu amor. Portanto, também neste episódio compreendemos que o nosso verdadeiro inimigo é o apego ao pecado, que pode levar-nos ao fracasso da nossa existência. Jesus despede-se da mulher adúltera com esta exortação: Vai, e doravante não tornes a pecar». Concede-lhe o perdão, a fim de que «doravante» não volte a pecar. Num episódio análogo, o da pecadora arrependida, que encontramos no Evangelho de Lucas (cf. 7, 36-50), Ele recebe e manda em paz uma mulher que se arrependeu. Aqui, ao contrário, a mulher adúltera simplesmente recebe o perdão de maneira incondicionada. Em ambos os casos para a pecadora arrependida e para a mulher adúltera a mensagem é uma só. Num caso, sublinha-se o facto de que não há perdão sem arrependimento, sem desejo do perdão, sem abertura do coração ao perdão; aqui, põe-se em evidência o facto de que o perdão divino e o seu amor recebido com coração aberto e sincero nos incutem a força de resistir ao mal e de «não tornarmos a pecar», de nos deixarmos arrebatar pelo amor de Deus, que se torna a nossa força. A atitude de Jesus torna-se, deste modo, um modelo a seguir para cada comunidade, chamada a fazer do amor e do perdão o coração palpitante da sua vida.

Estimados irmãos e irmãs, no caminho quaresmal que estamos a percorrer e que se aproxima rapidamente da sua conclusão, sejamos acompanhados pela certeza de que Deus nunca nos abandona, e que o seu amor é nascente de alegria e de paz; é força que nos impele poderosamente ao longo do caminho da santidade. […]

Papa Bento XVI, Paróquia de Sta. Felicidade e Filhos Mártires, Domingo, 25 de Março de 2007

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